Palavra Andante


Carlos Sperança Cachorro Clube

Quem caminha na ponta sul da Rua Carlos Sperança, ali nas imediações da Casa do Gaúcho e do Scala 1,99 já deve ter reparado neles.

Eles trabalham naquele trevinho onde a Sperança encontra a 25 de Março e se bifurca em Salgado Filho e Moacyr Sampaio. Pelo menos três deles são habitués da porta do simpático botequinho da esquina. De vez em quando há outros patutos por ali.

A cachorra bege é chamada de Menina por uns e de Bichinho do Mato por outros. Os pretos são conhecidos por Zulu ou Bob e Ceguinho. Os nomes variam de acordo com quem interage com eles.

Passo seguido por ali a caminho do trabalho e tenho observado o comportamento daquela pequena matilha (família) urbana.  Minha teoria é que eles descendem dos raros Nanuni Kokoritus, o cachorro sagrado do Nepal. Só pode. Porque os cães da Sperança são muito Zen. Passam grande parte da manhã meditando. Atravessam a tarde em ondas alfa, alheios ao mundo. Seu estado de PAZ é tamanho que as pombas da Salgado Filho vão ali no trevo, comer a ração deles. Eles não se importam, apenas compartilham seu alimento. Não lembro se Jesus tinha cachorro, mas creio que apoiaria a atitude dos peludos em dividir o pão.

É possível que alguém diga que eles atrapalham o trânsito. Discordo. São completamente adaptados ao meio. Além disso, a presença deles por ali é mais um motivo para os motoristas diminuírem a velocidade na subida da 25, ao cruzarem pelo local, já que ali temos 4 ruas convergindo.

Quando estudava na UFSC, também havia cachorros nativos do local. O líder da matilha era um cãozinho nervoso chamado Reitor. Toda comunidade universitária gostava deles. Aqui na cidade percebo que os animais também são muito queridos.

Não poderia ser diferente. Caçador (apesar ou por causa do nome) está sob a jurisdição de São Francisco. Quem visita a Matriz entende melhor o que isso significa ao ver a dourada imagem do patrono dos animais.

Somos todos habitantes da mesma Terra. Colegas de existência. Numa civilização realmente adiantada, o maior (mais capaz) protege o menor.

Rodrigo Espinosa Cabral

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Rodrigo Espinosa Cabral

Rodrigo Espinosa Cabral, brasileiro, vegetariano, gremista. Um pedaço de poeira cósmica que, às vezes, escreve. Palavra Andante, um passeio pelo mundo das letras.

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