Palavra Andante
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Atualizado em  |  06/06/2013 11:11
Perfil
Rodrigo Espinosa Cabral
rodrigoec@gmail.com

Rodrigo Espinosa Cabral, brasileiro, vegetariano, gremista. Um pedaço de poeira cósmica que, às vezes, escreve. Palavra Andante, um passeio pelo mundo das letras.

Caçador, 1513

Peguei o Jonas Ramos numa manhã luminosa de outono e, devido ao sacolejo do ônibus e o calorzinho do sol, acho que fui entrando num transe, olhando a cidade na subida da Salgado Filho.

Como era tudo aquilo ali antes?

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Antes dos imigrantes, antes dos monges, no tempo dos índios. Devia ser um carreirinho, uma trilha entre os pinheiros. O indiozinho que andasse por ali deveria ficar abismado com os troncos seculares das imbuias, das araucárias e tantas outras árvores que há muitas décadas viraram lenha, casas e galpões.

De dentro do ônibus fui pensando no hipotético curumim. 12 anos de idade, descendo a escarpa, mais ou menos onde hoje é o Cereal. Olhos atentos ao movimento das sombras, o sol procurando tocar o chão da floresta. Ouvidos aguçados no chocalhar das folhas, no canto dos pássaros.

Um macaco salta. Duas araras voam. Ele sobe num ipê-roxo e lá de cima avista o vale que se estende em ondas verdes até tocar o céu azul. A beleza é tão grande que sente uma pontada elétrica na barriga e tem vontade de fazer xixi. E faz. Lá de cima do Ipê, se divertindo muito com o longo fio líquido que parte dele até encontrar o solo, 30m abaixo.

Ele não sabe, mas 500 anos depois dezenas de carros ziguezagueiam apressados no asfalto. Sem trânsito nenhum, lá de cima, ele vislumbra o Rio do Peixe brilhando. O céu refletido em suas águas. Sorri.

Desce feliz. Mas com medo das onças, jaguatiricas, curupiras e njamulus. “Felicidade é ter medo e fazer algo para enfrentar o medo”, dizia o Pajé. Lembrando das palavras do xamã, o curumim corria feito fecha pela mata, morro abaixo.

Em sua corrida ultrapassa insetos, flores, troncos caídos, poças de lama... com uma agilidade absurda. A trilha termina num barranco às margens do rio. Quando o chão acaba, ele se lança no ar. Seu corpo brilha no sol por um instante e então mergulha no rio maravilhoso que o recebe como um pai saudoso de seu filho.

Saio do transe quando um garoto liga um funk no celular. Desembarco três pontos depois do meu e me jogo no rio, para voltar à realidade. Feliz semana do Meio Ambiente.

Rodrigo Espinosa Cabral


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