Palavra Andante
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Atualizado em  |  04/07/2013 11:32
Perfil
Rodrigo Espinosa Cabral
rodrigoec@gmail.com

Rodrigo Espinosa Cabral, brasileiro, vegetariano, gremista. Um pedaço de poeira cósmica que, às vezes, escreve. Palavra Andante, um passeio pelo mundo das letras.

Numa pequena escola, em uma periferia do Brasil, um aluno chega para a professora e diz:

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— Sora, larga dessa vida.

— O quê?

— Larga mão, sora.

Ela já tinha cansado de pedir para ser chamada de “professora” e agora tentava se concentrar apenas na mensagem.

— Largar o quê, menino?

— Ó eu aqui. Ganho bem mais do que você.

— Ganha?

— Ganho, ó: tênis de marca, boné daora... tudo vendendo baguio.

Ela respira fundo. Aquela situação não estava no plano de ensino. Nem nos livros da faculdade.

— É, pode ganhar bem. Mas tua carreira é curta.

Ele para, olha para ela por um instante e muda de argumento:

— Mas eu que mando aqui na quebrada. Aqui todo mundo me conhece e me respeita, ligado.

— Estou. Estou ligada, sim. Venho todos os dias aqui onde você mora. Já vi que aqui não tem calçamento na rua. E nem esgoto. Tem lixo jogado por tudo que é lado. Quando chove fica um barral. Tem 400 cachorros, gatos e cavalos sofridos abandonados por aí. Sem falar nas criancinhas... Por que será que tudo aqui anda tão esquecido?

Era um momento novo para ele, pensar sua vida a partir do ponto de vista da professora.

— E mais, o que adianta ter tênis de marca, mas unha suja?— perguntou com um sorriso carinhoso de quem trata os alunos como se fossem filhos queridos.

— Também não avacalha, né sora! — disse rindo. Conhecia a professora há dois anos e gostava dela.

— Tudo bem, mas o que adianta caminhar calçando 300 reais em cada pé, mas tendo que desviar da lama e das poças?

Ele parou e ficou em silêncio. Pensava. Seu pensamento calçava as ruas, vestia as crianças e limpava seus ranhos. Não gostava de ouvir o que ela falava, mas sabia que era verdade. Para a professora também era um diálogo inusitado. Abria a grade curricular e libertava o pensamento.

Se olhasse pela janela, veria que Paulo Freire passeava pela rua.

Rodrigo Espinosa Cabral


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