Palavra Andante

Ser Como a Folha Amarela


Ser Como a Folha Amarela

Por onde você andou? Assim que você acorda de um sonho bom, com o sistema zerado e a mente serena... de onde será que você veio? Que constelação interior você visitou?

Com o quê ou quem você sonhou? O que faz com os restos de sonhos em suas mãos? Aos poucos você vai enchendo a mente com a ordem do dia: pia-espelho-chuveiro-sabonete-toalha-espelho-café-água-fogão-pão-geladeira-louça... E vai trocando a paz inicial do sistema pessoal por esta nossa sociedade agitada.

Tem um sutra (um ensinamento) de Buda que diz “você é como a folha amarela”, alertando para a finitude da vida e a necessidade de valorizarmos esta experiência. Assim como as folhas que balançam verdinhas ao sol um dia irão ficar secas e amareladas e, finalmente, irão se soltar da árvore, nós também temos um tempo pré-determinado para ficar por aqui. Antes do grande voo, rumo ao desconhecido.

Ninguém precisa se desesperar. É uma lei da vida. Vai acontecer comigo, com todos que eu conheço, todos que você conhece e com você também. A poetisa americana Emily Dickinson dizia que a beleza da vida é que ela nunca mais volta. É uma frase forte, um míssil disparado agora, em direção a você. Tudo que te acontecer, de bom e de ruim, tem essa doçura de nunca mais voltar. Mesmo que aconteça de novo, vai ser diferente. Não é possível se banhar no mesmo rio duas vezes, já explicava um velho grego. “Eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei” já cantava o baiano atemporal.

As folhas voam. Talvez toda essa vida grudada no galho, balançando pra lá e pra cá seja uma preparação para o voo. Um breve voo ou uma viagem inóspita na ventania. Sem saber ao certo aonde vai parar e que solo vai enriquecer para continuar alimentando a árvore, a vida e a Terra.

Talvez seja assim também para nós. Vamos vivendo e morrendo aos poucos. Em alguns dias vivemos mais e um dia vale por semanas. Em outros tudo passa a mil. Às vezes fica tudo tão lento e monótono, mas de uma hora pra outra pode mudar. Nesse processo nutrimos a própria vida que nos nutre o tempo todo com ar. Harmonia.

E agora, neste instante, por exemplo, temos a chance – o presente – de poder encontrar pessoas queridas, observar os outros animais do planeta e suas outras folhas. Podemos olhar as nuvens, as estrelas, plantar, tomar água e sol. Fazer um som, sorrir. Amar, dormir e sonhar. Andar por outros espaços.

Até que está bom para uma folha, né?

Rodrigo Espinosa Cabral


Rodrigo Espinosa Cabral

Rodrigo Espinosa Cabral, brasileiro, vegetariano, gremista. Um pedaço de poeira cósmica que, às vezes, escreve. Palavra Andante, um passeio pelo mundo das letras.

rodrigoec@gmail.com