Palavra Andante
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Atualizado em  |  16/05/2013 11:30
Perfil
Rodrigo Espinosa Cabral
rodrigoec@gmail.com

Rodrigo Espinosa Cabral, brasileiro, vegetariano, gremista. Um pedaço de poeira cósmica que, às vezes, escreve. Palavra Andante, um passeio pelo mundo das letras.

Se Enxergue

Gosto muito da expressão “se enxergue”. Penso que ela é genuína aqui da serra catarinense. Você não ouve “se enxergue” no litoral ou na televisão.

Quando alguém te diz “se enxergue”, significa que:

* a pessoa se importa com você;

* a pessoa usou um termo antigo, ou seja, um presente das nonas.

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Olho com carinho para essas frases que atravessam gerações, séculos. Há sabedoria nelas. Quando alguém nos diz “se exergue”, é um tipo de máquina do tempo que a pessoa ativa. É um jeito de pisar numa trilha histórica. É como se o seu trisavô, que você não conheceu, te olhasse e falasse com você. As palavras dele saindo por entre os fios brancos de uma barba espessa. “Má-que-tipo. Se enxergue!”

Os ditados populares carregam essa sabedoria do porta-malas. Às vezes podem até não funcionar ou trazer algo que não sirva aqui no século XXI. Mas, no geral, são palavras que ajudam.

Você pode dizer: “mas se tem coisa que eu detesto é que alguém me diga se enxergue. Eu viro um bicho”. Nesse caso, ofuscado pela raiva, você não está enxergando muito bem :D...

Ou quem sabe você pense que, quando nos falam “se enxergue” é porque querem nos travar, nos reprimir.

Sim. E não.

Sim, querem. Nós humanos somos criados (por amor e segurança) com limites. E moramos numa sociedade cheia de barreiras. Mas o “se enxergue” é um guarda compreensivo. Ele te reprime só até a página 10.

Da página 11 em diante é com você. Você vai ter que se enxergar, ou seja, você tem que olhar no espelho de si mesmo. Lá dentro. O poeta japonês Matsuo Bashô dizia que “a viagem mais para fora é a viagem mais para dentro”.

Em seu interior tem um caminho iluminado. Quando a gente se enxerga, se analisa, pode descobrir outras estradas, fazer novos rumos. Então aquele lembrete dos antigos “se enxergue” não nos reprime tanto, não impede que a gente faça algo. Mas sugere que seja feito com responsabilidade. Com mais consciência.

Rodrigo Espinosa Cabral


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