Natural de Gravatal, litoral de Santa Catarina, Salézio Kindermann veio para Caçador na década de 60 e é aqui que ele constituiu sua família e mora até hoje. Empresário bem sucedido no ramo hoteleiro, ele já se aventurou na política como vereador, mas é no futebol que está grande parte da sua história de vida.
Amante do futebol e goleiro de pelada de fim de semana nos campos de várzea, Salézio criou em 1977 a Sociedade Esportiva Kindermann. Mesmo com a mudança do nome pra Caçadorense ele sempre esteve envolvido na diretoria do clube, destacando-se como grande entusiasta e investidor do futebol de campo em Caçador.
Neste sábado (15) Salézio recebeu a reportagem do Portal Caçador Online para uma entrevista exclusiva. Ele relembrou a trajetória do Kindermann e da Caçadorense, falou dos grandes jogadores que passaram por aqui, das transações financeiras, enfim, contou um pouco sobre os bastidores do futebol.
Ele ainda disse que o Kindermann fechou as portas em 2002 principalmente por falta de patrocínio, mas também culpou o novo método de disputa adotado no Campeonato Catarinense, que segundo ele “é pra acabar com os times pequenos”.
Se auto denominando um louco, Salézio revelou também que somente em dinheiro vivo já investiu mais de R$ 1 milhão no futebol de campo de Caçador, mas não se arrepende nem um pouco e se orgulha e diz ter contribuído para o esporte local.
Ele ainda falou da transição para o futsal feminino e disse estar curtindo o sucesso em nível nacional da equipe. Neste ano o Kindermann/UnC/Caçador ganhou todas as competições que disputou e Salézio estava sempre presente. Finalmente ele confessou que ainda pensa em voltar ao futebol de campo futuramente, mas somente com um projeto moderno e bem elaborado.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista
A história do futebol de campo de Caçador
O início (1976)
Em 1976 eu tinha uma vidraçaria, Vidraçaria Kindermann, e juntamente com um grupo de amigos, todos boleiros de fim de semana, resolvemos montar um time pra jogar o Campeonato Municipal Amador daquele ano. Foi quando surgiu a Sociedade Esportiva Kindermann.
Experiência (1977)
Em 1977 a Federação Catarinense de Futebol resolveu convidar equipes municipais pra disputar a 1ª Divisão Profissional e eu resolvi participar com o Kindermann. Fiz uma seleção de Caçador, chamei o técnico Inácio Alves pra treinar e jogamos o primeiro semestre somente com atletas da casa. Foi um período difícil porque não tínhamos experiência nenhuma em futebol profissional e ainda tocando um time amador.
No segundo semestre de 1977, que valia a Taça Santa Catarina, começamos a trazer jogadores de fora. Trouxemos o Galina, Zeca, os irmãos gêmeos Valmor e Vilmar, o Délcio e o Cabinho. Resumindo apesar das dificuldades tivemos uma participação razoável e muito válida pra aprendizagem.
O primeiro grande time (1978 – 1979)
Em 1978 nós reforçamos a diretoria, surgiram alguns investidores e mudamos o nome pra Caçadorense. Disputamos novamente o Estadual da 1ª Divisão e dessa vez fomos bem melhor. Em 1979 a Caçadorense era um timaço com Galina, Délcio, Valmor, Vilmar, Eliseu, Hermes, Gambetta, Miúdo, Paraná, Ademir Padilha, Zeca, Cabinho, entre outros. Com essa equipe nós ganhamos de muitos times grandes em Santa Catarina.
Amistosos Nacionais (1978 – 1979)
Em 1978, no jogo em que o Estádio Municipal mais lotou na sua história com 5 a 6 mil pessoas, foi um amistoso entre Caçadorense e Santos, que terminou empatado em 1 a 1.
Outro grande jogo foi também em 1978 contra o Vasco em que o Roberto Dinamite fez três gols na Caçadorense aqui no Estádio Municipal.
Negociações (1979 – 1980)
No final de 1979 e 1980 devido a dificuldades financeiras tivemos que negociar alguns jogadores. Vendemos o Cabinho e o Zeca para o Velo Clube, do interior de São Paulo. Emprestamos o Galina, o Délcio e o Eliseu para o Joinville. E também vendi o Ademir Padilha para o Joinville por 2 milhões de cruzeiros.
1º Fechamento (1981)
Em 1981 a Caçadorense fechou pela primeira vez. A equipe ficou muito valorizada, os salários muito altos e não conseguimos manter. Aquela era a hora de algum patrocinador grande assumir o clube talvez Caçador hoje tivesse um time de ponta, pois já estava tudo encaminhado.
O recomeço (1985 – 1988)
Em 1985 eu coloquei a Caçadorense novamente em atividade e começamos a disputar o Estadual de Amadores. Em 1986, 1987 e 1988 disputamos a 2ª Divisão do Profissional e fomos preparando o time.
O primeiro grande título (1989)
Em 1989 nós tínhamos uma equipe preparada. Bastava trazer uns três ou quatro reforços de fora pra ter um time com grandes condições de subir pra 1ª Divisão. E foi isso que aconteceu. Com o técnico Joaquinzinho chegamos a final contra o Inter de Lages e fiamos campeões ganhando em Caçador por 2 a 0 na última partida. Conquistamos o título e subimos pra 1ª Divisão. Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida.
A equipe era mais ou menos essa: Galina, Rafe, Osmar, Chapecó, Imbuia, Betinho, Jucinei, Ademir, Zeca, Toninho Caxão e Ademir Padilha.
Anos inesquecíveis (1990 – 1994)
Em 1990, 1991, 1992, 1993 e 1994 foram anos muito bons pra Caçadorense porque tínhamos uma equipe maravilhosa. Da saudade de lembrar de jogos como em 1991 contra o Criciúma em que a Caçadorense goleou por 4 a 1. Naquele ano o Criciúma foi campeão catarinense perdendo apenas dois jogos, um pra Chapecoense e outro pra Caçadorense por 4 a 1.
Outro jogo que vai ficar na história foi uma vitória por 2 a 1 contra o Joinville que estava invicto a 32 partidas. No outro ano eles voltaram “mordidos” e perderam de novo por 1 a 0.
2º Fechamento (1995)
Em 1995 a Caçadorense parou pela segunda vez por problemas financeiros. Algumas pessoas que assumiram a administração do clube não recolheram INPS e Fundo de Garantia e acabaram tomando uma multa de aproximadamente R$ 800 mil se fosse hoje. Na verdade o clube não devia nem R$ 20 mil, mas não deram bola, ninguém se defendeu e quando veio a multa fomos obrigados a fechar.
Novamente Kindermann (1996 – 1998)
Em 1996 eu fundei novamente a Sociedade Esportiva Kindermann, desta vez com novo CGC. Em 1997 fiz um time pra disputar a 2ª Divisão. Em 1998 a Federação decidiu aumentar o número de clubes na 1ª Divisão e como o Kindermann tinha feito uma boa campanha fomos convidados mais uma vez a fazer parte do grupo de elite do Futebol Catarinense, desta vez como Kindermann.
Outro grande time (1999 – 2001)
Em 1999 montamos um bom time novamente. Revelamos o Patrício, que hoje está no Grêmio. O Ademir Sopa, que hoje está no Avaí, o Leandro que está no Ituano. Fizemos bons campeonatos em 1999, 2000, 2001 e 2002. Em casa fizemos partidas muito boas também vencemos o Figueirense por 3 a 2, o Avaí por 1 a 0 aqui e 3 a 1 lá em Florianópolis.
Pedro Paulo, Patrício, Borjão e Reato e Ezequiel, Ademir Sopa, Bibico, Tita, Carioca, Liminha, Roni, Willian Carioca, Paulinho França, Lita, entre outros.
Declínio (2002 – 2003)
Em 2002 o Kindermann foi rebaixado para a segunda divisão, que foi disputada no segundo semestre do mesmo ano. Em 2003 transferimos o time para Chapecó através de uma parceria Chapecoense Kindermann Mastervet que não prosperou. Apesar do CGC ser do Kindermann e eu poder trazer o time de volta pra Caçador eu não obtive muito apoio e resolvi parar. Eu precisava fazer uma reforma no Hotel e também ficar correndo atrás de patrocínio uma hora cansa.
Kindermann Futsal (2003)
Em 2003 eu e o Antônio Carlos Jussim montamos uma equipe masculina de futsal. Era um bom time era um bom time, mas logo percebemos que o futsal feminino, que era pouco explorado, poderia nos dar mais resultados a nível nacional.
Futsal feminino (2004 – 2006)
No início de 2004 nós resolvemos migrar pro futsal feminino, que era pouco explorado até então, e seria mais fácil de obter resultados a nível nacional. Trouxemos do Espírito Santo o técnico Edvaldo Erlacher e uma equipe inteira de jogadoras. A partir daí já conquistamos mais de 10 títulos.
Títulos:
Campeão Catarinense adulto (2004)
Campeão Catarinense sub-20 (2004)
Campeão Catarinense sub-17 (2004)
Campeão Brasileiro sub-20 (2004)
Campeão da Taça Brasil adulto (2005)
Campeão dos Jogos Abertos de Santa Catarina (2005)
Campeão dos Jogos Universitários Catarinenses (2005)
Vice Campeão Brasileiro (2005)
Campeão Mundial na Turquia (2005)
Campeão Catarinense adulto (2005)
Campeão da Copa Santa Catarina (2006)
Campeão da Taça Brasil (2006)
Campeão dos Jogos Abertos Brasileiros em Nova Friburgo (2006)
Campeão dos Jogos Universitários Catarinenses (2006)
Bastidores
Como era o seu relacionamento com os jogadores?
O jogador é difícil de lidar quando você trata alguma coisa com ele e não cumpre. Até eles sempre diziam que a gente pagava pouco, mas pagava certo. Em 30 anos de futebol eu tive apenas duas ações trabalhistas com jogador de futebol e ganhei as duas.
E na questão da disciplina?
Por aqui passaram inúmeros jogadores bons que gostavam de uma cachaça, de uma festa, e que aprontavam muitas. Mas a gente mandava embora não tinha colher de chá. Tinha um jogador chamado Paraná que veio pra cá em 1978 jogava muita bola, só que foi mandado embora. Teve um dia que ele jogou o colchão do alojamento no rio só porque queria um colchão novo, mas tinha tomado umas e outras.
O Ademir Padilha era outro que às vezes bebia e aprontava. Foi duas vezes pra cadeia porque bebeu demais e queria bater na mulher e queria bater em todo mundo. Mas esse era muito craque não tinha como não deixar jogar.
Desse último período tinha o Pedro Paulo que era meio revoltado, quando tinha alguma coisa que ele não gostava ele se revoltava, mas eu sabia lidar com ele.
Qual foi o melhor jogador que passou por aqui?
Teve vários. Bizu, Cabinho, Tita, mas o melhor mesmo sem dúvida foi o Ademir Padilha.
Clique aqui e confira o obituário de Ademir da Padilha que foi publicado pelo jornal A Notícia em 1998 pelo colunista esportivo Maceió.
Como são os bastidores do futebol, as contratações?
A contratação de jogadores eu tenho contato com diversas pessoas, empresários, radialistas, olheiros, entre outros que sempre oferecem jogadores, sugerem alguns nomes. Daí mando vir pra cá, faz um teste e se for bom acaba ficando. Nesse aspecto, que é uma coisa que eu faça com muito prazer, eu mais acertei do que errei, tive bastante sorte, pois vários jogadores foram revelados aqui.
O que você acha do Caçador Atlético Clube?
Time amador é complicado porque você quase não treina, o jogador trabalha o dia inteiro e você não pode cobrar resultado, então é bem difícil. Mas é o primeiro passo o Kindermann começou assim. O CAC teria que ter mais pessoas envolvidas que ajudassem. O grupo que está atualmente ali não tem condições de jogar um campeonato profissional porque o custo é muito alto. Eu encarava porque se a coisa apertava eu bancava.
Como foram as negociações envolvendo o jogador Patrício?
O Patrício nós compramos do Olaria de Xanxerê e revelamos ele para o Brasil. Em 1999 e 2000 ele se destacou muito no campeonato catarinense despertando o interesse de vários clubes. Eu acertei o empréstimo dele para o Grêmio em 2001 por R$ 500 mil. Recebi R$ 100 mil no início, mas daí ele jogou mal umas partidas decisivas do campeonato brasileiro e o Grêmio dispensou. Perdi de ganhar R$ 400 mil. Depois emprestei ele para o Vasco por R$ 150 mil, pro Paraná por R$ 30 mil. No ano passado ele fez 30 anos e ficou dono do próprio passe.
Qual o balanço financeiro pessoal que você faz nesses 30 anos de futebol?
Esses R$ 100 mil do empréstimo do Patrício pro Grêmio, por exemplo, eu investi tudo nos juniores do Kindermann, tanto que nós fomos vice-campeões catarinenses em 2002. Fazendo um balanço geral, sem contar o que eu arrecadei de patrocínio eu gastei mais de R$ 1 milhão em dinheiro vivo do meu bolso em futebol nesses 30 anos. Sem contar moradia, hotel, alojamento do estádio que eu reformei duas vezes já. E o meu retorno foi na divulgação da marca do meu hotel que é conhecido em vários lugares. Todo canto de Santa Catarina e até em outros estados que eu vou o pessoal conhece o Kindermann.
Você tem vontade de voltar a se envolver com o futebol de campo?
Neste momento é inviável porque exige muito dinheiro. Agora que quero reformar meu hotel e o futsal feminino está muito gostoso. No futebol de campo a gente brigava pra não cair e no futsal já fomos duas vezes campeões brasileiro. Mas, quem sabe no futuro eu me aventure mais um pouco se tiver um projeto bem elaborado, com bastante gente envolvida, uma parceria de um grande clube pra revelar jogadores acho que é o melhor caminho.
Clique aqui e leia também o obituário de Ademir da Padilha que foi publicado pelo jornal A Notícia em 1998 pelo colunista esportivo Maceió.